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ENTREVISTA EXCLUSIVA

Roberto Cortes, da VW: "temos bons motivos para acreditar em 2022"

“Minha expectativa de uma melhora da situação como um todo é bastante forte”, enfatiza

02/02/2022 07h55Atualizado há 4 meses
Por: Romulo Felippe
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Roberto Cortes
Roberto Cortes

 

Romulo Felippe

romulo@editoraviver.com.br

 

Com mais de quatro décadas de atuação no setor automotivo, Roberto Cortes é uma das figuras mais emblemáticas no transporte rodoviário de cargas brasileiro. O CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus celebra mais um ano de liderança de sua marca no mercado brasileiro, já antevendo um 2022 de desafios e também de conquistas. Nesta entrevista exclusiva, Cortes disseca os planos da Volks a nível mundial (acaba de chegar no mercado asiático), faz projeções para este ano e aponta, mais uma vez, sua poderosa crença na economia brasileira. “Minha expectativa de uma melhora da situação como um todo é bastante forte”, enfatiza. Confira:

 

Revista Caminhões: Como você avalia o ano de 2021 para o transporte rodoviário de cargas? 

Roberto Cortez: Eu diria que tanto o cenário brasileiro quanto o internacional não deferiram muito dos setores de caminhões e ônibus de 2021. Os desafios foram basicamente os mesmos. Tanto aqui no Brasil como nos maiores países transportadores. E a nossa maior preocupação foi garantir produtos e serviços para garantir que a economia desses países não parasse. Especificamente na nossa indústria a gente enfrentou a escassez de peças, com especial destaque para os componentes eletrônicos, os famosos chips, os semicondutores que afetam de um modo geral motores, painel de instrumento, transmissões. Ainda assim nós fomos capazes de avançar a tal ponto de liderarmos o mercado brasileiro de caminhões com 29.1% de participação. E com o aumento no nosso volume de vendas de 46.4% em relação ao ano anterior. Também garantimos a nossa tradicional vice-liderança no segmento de ônibus com 26.3%. Vimos também os nossos objetivos de embarque no exterior, mesmo com a dificuldade da Covid. Foi realmente um ano desafiador para o setor, mas conseguimos equilibrar a dificuldade da cadeia de fornecimento e, de alguma forma, atender a recuperação no mercado após a queda acentuada em 2020. Chegando no final de 2021, eu diria, com um resultado de venda bastante interessante. 

 

O que significa para a marca, e em especial para sua gestão, obter mais um ano de liderança de mercado em um momento tão adverso?

Pode-se dizer, Romulo, que para nós a liderança de mercado tem realmente um grande significado. A gente entende como um reconhecimento dos clientes e do mercado em relação à qualidade dos produtos e sua respectiva aceitação. A nossa obsessão é pela remuneração dos investimentos dos “State holders” aqui no Brasil, e para nossa alegria a gente está conseguindo de alguma forma atender a essa expectativa, e ao mesmo tempo liderar o mercado. Porque o que suporta os investimentos, a continuidade realmente são os resultados financeiros. E eles vindo com liderança de mercado têm um significado ainda maior. Então essa liderança eu diria que é resultado de muito trabalho, muita colaboração, sinergia, que é o nosso DNA, dos trabalhadores, dos fornecedores que chamamos de parceiros, dos 150 concessionários mais um outro tanto de importadores e no final do dia nossos clientes, que acreditam nos nossos produtos. Eu diria que a liderança foi a cereja do bolo em um ano que celebramos marcos históricos. 40 anos da marca Volkswagen caminhões e ônibus, 25 da nossa fábrica em Resende, em um ano difícil que em meio a essa pandemia a gente lançou o e-Delivery, um “Brake-thru”, uma inovação do primeiro caminhão elétrico desenvolvido e produzido no Brasil. Então, finalizamos o ano com muito orgulho da nossa trajetória, principalmente por termos conseguido equacionar tantas variáveis em um ano tão difícil. Monitorando a produção da fábrica aliado a produção de peças, e ao mesmo tempo dando prioridade na saúde dos nossos colaboradores em relação a pandemia. Estamos bastante felizes com os resultados.

 

Só relembrando uma entrevista do Raul Randon, concedida há uns 15 anos atrás, em uma das primeiras crises econômicas que a gente atravessou nessa época. Ele me falou o seguinte: “crise significa também oportunidade”. É claro que estamos vivendo uma crise humana. Mas a questão é a seguinte: vivemos tempos desafiadores no contexto econômico e humano, mesmo assim conforme os números apresentados pela Anfavea registramos um bom ano no contexto geral do segmento. Você elencou muito bem em dezembro, no seu pronunciamento para a imprensa, uma série de razões para acreditarmos em 2022, sensacionais por sinal. Eu lhe pergunto: podemos sonhar com um 2022 melhor do que as perspectivas projetam?

Só fazendo uma retrospectiva do que falei em dezembro, temos bons motivos para acreditar que 2022 será um ano bom, por exemplo, o crescimento do agronegócio, que é muito bom para o nosso negócio, construção civil, exportações, esse investimento em infraestrutura, o efeito do programa social da renda Brasil, novas formas de comercialização, a necessidade de renovação de frota, isso nos leva a crer que realmente existe possibilidade de crescimento. Porém, ainda temos algumas incógnitas, essa questão da Covid é um repique que estamos tendo? Como vai ser a evolução disso? Como vai ser o crescimento econômico? Como vai ficar a questão dos aumentos dos juros que também impactam na propensão a investir, comprar caminhão, a propensão de preços, então realmente tem uma série de fatores positivos, mas alguns de mais preocupação. Mas eu acho que num balanço a análise feita pela Anfavea representa bem as expectativas do mercado. Apesar dessas turbulências econômicas e também o cenário eleitoral que a gente vai viver, está projetando o aumento das vendas em torno de 10%. Óbvio que isso depende muito da disponibilidade de peça e desses fatores que eu elenquei, mas é uma projeção possível. Hoje é muito difícil cravar um número porque, como eu falei, as variáveis são muito maiores do que aquelas nos meus 42 anos de projeções da indústria automobilística tive. Mas acreditamos que seja possível um bom número.

 

Sabidamente, a Volswagen saiu na frente com seu e-Delivery fazendo história, não só no Brasil como em outros mercados. Nossas páginas estão recheadas mês a mês com os avanços dos caminhões elétricos no Brasil e no mundo. Como você enxerga um futuro próximo? Dá para visualizar nossas estradas mais tomadas por caminhões elétricos?

Eu diria que o futuro do caminhão será limpo, de preferência elétrico, conectado e autônomo. Eu diria que na ordem, conectado nós já estamos bastante avançados, o elétrico nós estamos começando agora e o autônomo vem um pouquinho mais para o futuro. E nós, por acreditarmos na logística e no transporte limpo no presente e no futuro, tomamos a decisão de desenvolver e lançar no mercado o primeiro caminhão 100% elétrico como você mencionou. Fizemos por acreditar não só que essa tendência existe no Brasil, mas principalmente no mundo. É uma tecnologia que está vindo para ficar e que, sem dúvida fará uma história de sucesso na vanguarda da inovação junto aos nossos clientes. É inegável que uma mudança dessas vai demandar muitos anos, então vamos seguir convivendo com veículos diesel por décadas. Mas estamos em um crescimento contínuo na conquista de novos clientes interessados no famoso processo “ISG” e aí o elétrico entra buscando enfoque na emissão zero e na inovação e as empresas estão todas preocupadas com a reputação funcional que são cativadas pelo e-Delivery.

 

Qual papel o motorista vai ocupar a partir do momento que os caminhões se tornarem autônomos?

Primeiro que a gente está falando isso décadas e décadas. Como qualquer evolução, tudo evolui e produtividade é o nome do negócio. Então, o motorista, em vez de ficar como atualmente todo o tempo segurando a direção, ele vai fazer alguma coisa além de monitorar, alguma coisa de produtividade que vai trazer resultado tanto para as empresas para ele, com mais eficiência. Eu vejo com bons olhos. Um elétrico exige menos manutenção porque um caminhão à combustão é mais complicado que um elétrico, mas em compensação o elétrico exige um monte de serviços que os concessionários estão vendo que existem compensações e mais ainda, eu vejo tudo isso como uma evolução. O motorista vai fazer mais coisas ainda do que faz hoje. 

 

E dá para adiantar alguma coisa para os próximos anos em termos dos pesados, para chegar a versão 100% elétrica caminhões brutos da marca?

Acreditamos, pelas análises, que a viabilidade maior dos elétricos, por questões de economia de escala, de utilização, é mais aplicável nas entregas urbanas. Então, inicialmente, nos nossos programas de e-mobility vamos nos concentrar no segmento de entregas urbanas conforme a configuração do e-Delivery. A prioridade é oferecer o e-Delivery e toda a estrutura necessária nesse sentido. Vai ser uma ação ampla e complexa, que todos vão ter que aprender com esse novo produto. Em paralelo, já respondendo a sua pergunta, a gente já iniciou as pesquisas do desenvolvimento da bateria de “líquen em parceria com a CBMN” e é um recurso essencial para viabilizar a operação de veículos como ônibus. Muito provavelmente a gente já vai ter neste ano um protótipo rodando nessa nova aplicação além do e-Delivery. E as outras aplicações a gente vê com tempo ainda para viabilizar em funções de prioridade, principalmente no Brasil, que é diferente da Europa e Estados Unidos. 

 

Duas perguntas em uma, porque elas estão conectadas. Queria saber se a matriz alemã mantém a sua fé inabalável no Brasil – como um todo, no contexto econômico e político mundial – e como está funcionando essa estratégia de atingir o mercado asiático a partir do nosso país.

A vantagem é que você ter uma matriz como a Volkswagen, que está há mais de 60 anos aqui é que ela conhece o Brasil. A gente sabe que o Brasil, por ser uma economia emergente, tem seus altos e baixos. Mas nos ciclos é um país bom para negócios, precisa saber gerenciar quando a situação está em baixa para obtermos frutos quando a coisa melhorar. E nós somos respeitados por gerenciar altos e baixos da economia de uma forma bastante interessante. Mas o mercado brasileiro de caminhões e ônibus é estratégico para nossa matriz. Não sei se você sabe, mas o Brasil é o maior mercado para todo o grupo. Somos o número 1 seguidos por EUA e Canadá que contam juntos e terceiro, Alemanha, então, por aí te dá a importância. É  um mercado tradicional, grande para a marca e a solidez de mais de 40 anos das nossas operações, eu diria que é a maior razão para que o grupo apoie continuamente os nossos negócios. E respondendo à sua segunda parte da pergunta, como consequência isso nos credencia a investimentos contínuos aqui no Brasil. A gente teve uma série de investimentos consecutivos, de 1 bilhão, 1 bilhão e meio, 2 em cada cinco anos, trazendo cada vez mais novos produtos. Trouxeram um novo Delivey, o Meteor, Constellation extrapesado, o e-Delivery...E além disso nós podemos alçar voos audaciosos fora do Brasil. Nós somos tão grandes no Brasil, porque não crescer fora? Nós temos um plano de internacionalização muito forte onde queremos ter a mesma performance que a gente tem aqui no Brasil, de preferência com liderança de mercado, em 30 países da América Latina desde México a Argentina, na África e também no Oriente Médio e em alguns países da Ásia, como é o caso das Filipinas. Por coincidência nós lançamos oficialmente a marca, tivemos a cerimônia de lançamento da Volkswagen Caminhões e Ônibus nas Filipinas com um importador que também está interessado em montar principalmente ônibus lá. É um caminho bastante interessante no qual a gente quer reaplicar a história de sucesso da Volkswagen Caminhões e Ônibus do Brasil em outras áreas do mundo.

 

Essa mistura de Alemanha com Brasil está gerando grandes frutos... Como você analisa o mundo pós-pandêmico, no contexto geral? Você acha que dá para soerguer a economia?

Costumo dizer que os fundamentos da economia estão bem mais sólidos que estavam no passado. A inflação está relativamente acima da meta, mas bem menor do que estava antes. A questão da política cambial também, flexível, toda essa preocupação do teto do gasto, das reformas, acho que a tendência é positiva, espero que continue e com o fim da pandemia eu espero que a gente volte a viver um cenário bastante positivo. Sem dúvidas será diferente do mundo que vivíamos no começo de 2020, são dois anos que eu diria, de aprendizado, mas com as tecnologias que vieram para dinamizar as relações pessoais, isso que nós estamos fazendo hoje, veio para agregar, além dos cuidados preventivos e sanitários que se tornarão um hábito na nossa vida. Mas eu não tenho dúvida de que nós seguimos um caminho próspero, de oferecer cada vez mais produtos limpos, conectados e no futuro, autônomos.

 

Gostaria que você deixasse uma mensagem de otimismo para nossos milhões de trabalhadores do segmento... motoristas, frotistas, toda a cadeia de produção... uma mensagem de esperança de um 2022 melhor.

Minha expectativa de uma melhora da situação como um todo é bastante forte. E aliado a tudo isso, a gente busca a produtividade do transportador, seja ele autônomo ou com frota. Isso tem sido a nossa obsessão desde o lançamento dos primeiros caminhões em 81. Isso não mudará, seja na linha de produtos movidos a diesel ou elétricos, provendo mais serviços, assistência técnica e gerenciamento de frota, que é o que podemos oferecer de melhor. Então, o frotista, o transportador autônomo pode continuar contanto com os caminhões e ônibus Volkswagen nos mais de 30 países onde estamos. 

 

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