Especialistas mostram como treinar os nossos motoristas

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Enquanto a tecnologia embarcada dos caminhões avança na busca pela eficiência máxima na logística do transporte de cargas, o profissional por trás do volante – considerado o coração do segmento – nem sempre consegue caminhar nessa mesma direção. Mas treinamento e capacitação são essenciais para o crescimento do setor, mesmo para os motoristas mais experientes, conforme demonstrou o seminário “O motorista e a sustentabilidade no transporte”, realizado pela Scania junto à frotistas, caminhoneiros, especialistas e imprensa especializada.

Neta e filha de ex-caminhoneiros, Ana Carolina Ferreira Jarrouge (coordenadora nacional do programa Comjovem da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística, e diretora da Transportadora Ajofer) começou a trabalhar na empresa familiar aos 16 anos “varrendo carretas para serem recarregadas”. Ao longo dos primeiros anos junto ao setor chegou a viajar na boléia para conhecer, de perto, a evolução do transporte rodoviário e do profissional do volante. A Ajofer tem cinco décadas de estrada, especializada no transporte de pneus.

“Lembro que em 2011 faltavam 120 mil caminhoneiros para suprir a necessidade do mercado brasileiro naquele momento. Com isso foi preciso contratar sem grandes critérios. Era uma necessidade. Mas hoje, e muito disso em função da economia, as exigências são bem maiores. É preciso preparo e qualificação. E verdade seja dita: quem deu importância lá atrás à qualificação de seus motoristas se tornou no presente um diferencial para o mercado”, analisa a executiva.

Ana Jarrouge, que participou do seminário promovido pela Scania em sua fábrica, abriu o primeiro painel “Do insumo ao consumo: o papel do motorista na cadeia de transporte”. “Os profissionais do volante precisam receber constantemente novas informações, pois para ser condutor de um veículo comercial é necessário preparo adequado. E o profissional também deve ter consciência de que com mais treinamento qualificado ele arruma emprego”. Ela conta que em sua transportadora existem motoristas fazendo faculdade. “Vejo isso com bons olhos. Eles querem otimizar as cargas e as rotas, além de reduzir os custos”, analisa.

Mas a responsabilidade do aperfeiçoamento também está nas mãos dos frotistas e dos embarcadores, na visão do gerente corporativo de Logística da Ambev, Rodrigo Mataraia. “Na Ambev intensificamos uma parceria mais próxima com as transportadoras que trabalhamos. Exigimos uma série de processos, junto a essas empresas, para a contratação de motoristas. Afinal trata-se da exposição da nossa marca, mesmo sendo uma logística terceirizada. São responsabilidades mútuas”, explica Mataraia.

Segundo o gerente da Ambev, a implantação da Lei do Motorista não afetou sua logística no campo da eficiência. “Em termos de transporte de longa distância foi preciso contratar mais profissionais. E aperfeiçoamos ações, como por exemplo a Unidade de Distribuição do Rio de Janeiro com células de descanso para o motorista, que chega e dorme enquanto um colega dá prosseguimento à viagem”, conta. Ele crê que, quando melhorar a economia, a exigência para contratação será cada vez maior.

– A responsabilidade pela formação do motorista é de toda a cadeia, dos embarcadores, transportadoras e condutores!, afirma.

A Ambev é a maior companhia de bebias das Américas (responsável pelas marcas Brahma e Antarctica), trabalhando em parceria com 45 transportadoras cadastradas, que atuam com uma frota total de 5,6 mil caminhões – uma das operações mais complexas e eficientes do Brasil – em suas 29 fábricas e 116 centros de distribuição espalhados de Norte a Sul do país. Em termos urbanos são 75 mil entregas diárias somadas a 25 mil viagens de transferência. “Acompanhamos os custos do transportador através de suas planilhas abertas dentro de uma complexa cadeia logística. Isso nos permite saber onde aconselhar essas empresas para o ganho de eficiência e a redução de gastos deles próprios. Nesse processo – é importante que se diga – o motorista é fundamental”, conclui Rodrigo Mataraia.

Com 7,5 mil viagens mensais por entre seus 75 terminais, a Patrus Transportes conhece como poucos o papel do motorista profissional e de seu conseqüente treinamento. De acordo com a diretora Rejane Vasco, é grande o número de autônomos que operam com a transportadora. E sua metodologia de trabalho é diferenciada. “Não trabalhamos com exigências de carga horária, por exemplo, mas com a otimização do transporte. Os prazos de entrega são devidamente acordados. Essa parceria de sucesso nos torna muito bem qualificados pelos parceiros na acertabilidade dos prazos de entregas”, diz.

A frotista também alerta sobre a importância da valorização, em termos salariais, dos motoristas. “Nenhum profissional insatisfeito com sua remuneração deseja continuar em uma empresa. É uma atividade estressante e cansativa. Falta estrutura em nossas estradas assim como uma estrutura de espera entre os grandes atacadistas”, alerta a diretora de Projetos e Inovações da Patrus Transportes Urgentes, com sede em Contagem, Minas Gerais. A empresa possui 700 veículos próprios e uma frota terceirizada de caminhões composta por 900 unidades.

O motorista é um pilar fundamental para o gerenciamento de custos, na opinião do engenheiro mecânico Manoel Carvalho Filho, professor de Custos na Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte (Fabet). O especialista acredita que um condutor bem treinado pode reduzir em até 15% o consumo de combustível e diminuir em até 47% o índice de acidentes nas rodovias. A Fabet foi criada em 1997 pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Oeste e Meio Oeste Catarinense, localizada em Concórdia (SC).

Manoel começou como motorista de caminhão há 20 anos, o que lhe trouxe conhecimento mais aprofundado do setor. “Hoje 98% dos acidentes ocorrem por falha humana. Isso resulta em mais de 50 mil pessoas mortas por ano no Brasil, gerando um custo alto para o país. Dos 760 mil acidentes em 2014, 21% foram com caminhões, originando em 2.970 mortes de caminhoneiros nesse mesmo período. Isso precisa mudar e o treinamento é um passo fundamental nessa mudança”, explica.

Um estudo feito na Fabet com 61 motoristas, segundo revela o professor de Custos, mostra bem a importância do aperfeiçoamento na condução do caminhão. Foi utilizado em Scania R440 em um trajeto de 11 quilômetros. Depois do treinamento (comparando com a forma anterior de condução dos profissionais), registrou-se 10% de redução no consumo do diesel: nas primeiras voltas sem treinamento com esses motoristas gastou-se 283 litros do combustível; depois, com as dicas, as mesmas voltas caíram para 254 litros. Nas primeiras voltas totalizaram 1.206 trocas de marchas contra 770 após o aperfeiçoamento, além de 76% de redução no uso do freio e ganho de 18% no tempo.

– Um treinamento desse nível, se comparado ao grupo de 61 motoristas, representa uma economia de 35 mil litros de diesel por mês, algo em torno de 1,3 milhão de reais por ano, ou 4,2 milhões de litros em uma década. É uma prova de que o aperfeiçoamento é fundamental. Ganhamos todos com isso!, afirma Manoel Carvalho Filho.

 ‘MOTORISTAS DEVEM MULTIPLAR CONHECIMENTO’

Roberto Carlos Branco, coordenador e instrutor do Centro de Treinamento de Motoristas da Região Nordeste do Rio Grande do Sul (Centronor), acredita – em nome das escolas de formação – que os profissionais devem buscar mais os cursos técnicos à disposição no mercado: “as escolas oferecem diversos cursos, mas nossas salas de aula não estão cheias. Treinamento é a política certa, especialmente nestes momentos de dificuldades econômicas. Acredito que os motoristas devem ser multiplicadores de conhecimento, afinal 60% dos profissionais estradeiros são autônomos. Quem não procurar conhecimento vai ficar à margem do mercado profissional”.

A Centronor é um centro de treinamentos gaúcho idealizado pelas empresas de transportes Cavalinho e Bertolini, cuja missão é aprimorar o processo de formação e qualificação dos motoristas. Branco relembra que está na profissão estradeira há 32 anos, trabalhando na década de 80 para a empresa Rodomar. “Lá”, lembra ele, “tínhamos que fazer cursos com quatro meses de duração. Era a busca pela qualificação. Éramos então motoristas práticos sem formação profissional. Mas pouca coisa mudou nesse contexto de lá para cá”.

Jean Marcelo da Silva, instrutor na Martin Brower Transportes – empresa que no Brasil atua como distribuidora e operadora logística do McDonald’s entre 536 lojas presentes em 22 estados – alerta para a valorização dos caminhoneiros em um plano geral. “O motorista leva milhões em carga e dirige produtos cheios de tecnologia. É uma grande responsabilidade. O salário médio não pode continuar tão baixo. É um fator que afasta interessados na profissão”. Ele integrou o painel do seminário da Scania “O motorista como pilar fundamental para o gerenciamento de custos”.

HORA DE APERFEIÇOAR, DIZEM MOTORISTAS

Vencedor do prêmio de melhor motorista de caminhão do Brasil em 2014, Eliardo Locatelli dirige para a Transportes Nufell e defende uma maior integração entre os profissionais do volante e as empresas em que atuam. “O próprio motorista às vezes chega na transportadora e cita o valor baixo de determinado frete. Isso dá motivação para o empresário, sem dúvida, para que valorize seu próprio negócio”, avalia.

Outro ponto que o melhor motorista do país destaca é a integração do caminhoneiro com os embarcadores, principalmente em uma época com queda entre 20 a 40% do volume de cargas por conta da instabilidade econômica. “Dizem que o motorista é o custo mais alto da empresa ao lado do diesel. O profissional tem que se dedicar, se aperfeiçoar e, em principal, colocar o aprendizado em prática”, aconselha Eliardo Locatelli.

Mesmo pensamento tem o motorista autônomo Jorge Pereira de Araújo, da Simeira Logística – empresa de transporte responsável pela coleta, transferência e entrega de combustíveis e biocombustíveis por todo o país. “Nossa profissão não é opção, tem de gostar. Devemos trabalhar com afinco e responsabilidade, mas também buscar conhecimento. Quanto mais treinados mais contribuímos com a sociedade”.

Araújo conta que perfaz a rota da BR-101 até o Espírito Santo e que o diesel consome 40% ou mais do seu frete, dependendo do trajeto. “Deve-se sempre trabalhar com amor, dedicação e profissionalismo, afinal é do meu caminhão que tiro o meu sustento. Trabalho há 16 anos com um bitrem carga líquida inflamável, uma verdadeira ‘bomba ambulante’. Mas mesmo assim saio de casa com a certeza que vou retornar com segurança. Isso é fruto de uma série de fatores, incluindo treinamento”, garante o autônomo.

 



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